sábado, 14 de agosto de 2010

O AMOR É COMO UM GATO



o amor é como um gato
comedido
seduz ronronando
armadilha e bote
aconchego e mito

por isso desperto
e grito

Liana Timm

domingo, 1 de agosto de 2010

VERGONHA



- “Menina!” Disse alguém, no grande instante
em que era dividido em dois um ser...
E essa palavra, pelo mundo avante,
foi meu santo orgulho de viver...

Ser menina. Ser moça. Ser constante.
Ser caráter. Ser honra. Ser dever.
Por mais tropeços que encontrasse adiante
nunca me entristeci de ser mulher.

Mas veio o Amor. Veio a traição ferina
e todo o orgulho meu de ser menina,
roubou-o a sorte, malfadada e crua;

e veio a dor, e veio a mágoa, o tédio,
e a vergonha escaldante e sem remédio
de ter sido mulher para ser tua.

Benedita de Melo

domingo, 18 de julho de 2010

MINHA SENHORA DE QUÊ


dona de quê

se na paisagem onde se projectam

pequenas asas deslumbrantes folhas

nem eu me projectei



se os versos apressados

me nascem sempre urgentes:

trabalhos de permeio refeições

doendo a consciência inusitada



dona de mim nem sou

se sintaxes trocadas

o mais das vezes nem minha intenção

se sentidos diversos ocultados

nem do oculto nascem

(poética do Hades quem mdera!)



Dona de nada senhora nem

de mim: imitações de medo

os meus infernos

ANA LUÍSA AMARAL

terça-feira, 6 de julho de 2010

sábado, 26 de junho de 2010

Poema


Não sei nada
Não compreendo nada
E não irei sem nada ter aprendido
Senão as lições da minha própria angústia.
No entanto
Desta luta de punhais que se travou dentro de mim
Continuo a guardar lençóis manchados
Até o dia antes do fim de tudo
Em que hei de expor ao sol os mapas desta viagem

Renata Palottini

quinta-feira, 24 de junho de 2010

PARA OS SALGUEIROS JUNTO AO RIO




Um halo em jade às margens devolutas

nuvens procuram pavilhões distantes

As sombras deitam-se no rio de outono

as flores descem sobre os pescadores

Raízes densas são abrigo aos peixes

e enlaçam os ramos barcos visitantes

Suspira a noite à chuva geme ao vento

vertem tristeza os sonhos revolutos


赋得江边柳

翠色连荒岸,

烟姿入远楼。

影铺秋水面,

花落钓人头。

根老藏鱼窟,

枝低系客舟。

萧萧风雨夜,

惊梦复添愁。


Yu Xuanji

鱼玄机

terça-feira, 22 de junho de 2010

Valsas de Esquina de Mignone



Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.

Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.

Dora Ferreira da Silva